Nômades digitais: o lado ruim

O quê??? Ser nômade digital tem um lado ruim? Tem sim amiguinhos. Um pouquinho, mas tem. Nada que a gente não supere. Já estamos cansados de ver as fotos de laptop na praia, o que tem por trás de tudo isso?

Eu e R. deixamos nosso apartamento alugado faz 10 meses. Moramos em São Paulo, Curitiba e Itapema (em Santa Catarina). Nesse meio tempo deu para testar algumas coisas que funcionam, outras que não funcionam. Hoje vamos desmistificar algumas ideias do lifestyle do nômade digital, comumente retratado através de uma foto com dois pézinhos descansados diante de uma praia e um laptop no colo.

A foto do laptop na praia

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Essa foto é uma praga. Basta digitar ˝nômades digitais˝ no Google para dar de cara com várias. Sério que você vai levar seu laptop para a praia? Onde tem areia? E sol fazendo reflexo na tela? O mais longe que fui com meu laptop foi na sacada do apartamento. E não durou muito tempo, porque além do reflexo a cadeira era bem desconfortável. Imagina numa cadeira de praia sem mesa.

 

Cadeira é luxo

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Falando em cadeira… Você já sente dor nas costas de trabalhar na sua cadeira do escritório, agora imagina o dia inteiro numa cadeira como essa da foto acima? Não há paisagem paradisíaca que segure essa coluna! Sério, uma boa cadeira, uma de rodinhas, com almofadinha nas costas. É tudo o que você mais queria quando estiver se contorcendo para trabalhar na cadeira da mesa de jantar.

 

Fim de semana, não vem nimim

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Sexta… que comecem os trabalhos! (mesmo!) 😦

Se por um lado não existe mais o ódio das noites de domingo… também não existe mais a alegria da sexta às 18h da tarde. Aquele momento mágico onde você vai sapateando da cadeira do escritório até o bar mais próximo. O fim de semana está começando, seu trabalho também! Toda hora é hora. O fim de semana não é mais aquele momento de foda-se, não vou trabalhar. O seu instinto vai querer passear e se divertir, a sua consciência vai te lembrar que tem trabalho, e você vai ficar com um enorme peso na consciência de não estar se divertindo, nem trabalhando direito. Mas isso passa, viu?

 

A tortura vem pela janela

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Você sempre está numa cidade diferente, mil coisas novas para explorar. Mas você não está de férias. Os nossos primeiros dias em Itapema foram uma tortura para mim. Bastava abrir um sol, eu olhava pela janela e imediatamente não queria ter que trabalhar, queria estar na praia. Bate a preguiça, você começa a se desconcentrar e acha que está perdendo tempo dentro do apartamento. Esse é um dos motivos para eu não querer me mudar com tanta frequência. Ficamos um pouco menos de 2 meses em Itapema e não conseguimos aproveitar tudo o que queríamos, mesmo a cidade sendo pequena. Passamos a maior parte dentro do apartamento. O Larusso descreve essa experiência muito bem em seu blog, contando como essa sensação – dentre outros fatores – o levou à constatação de que o nomadismo digital não é para ele.

 

Eu trabalho mais do que antes

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Essa é uma parte que ainda estamos tentando ajustar. Passamos os últimos meses literalmente acordando na frente do laptop e quase dormindo abraçados com o laptop. Não é isso que eu quero, mas espero conseguir equilibrar meu tempo no próximo ano.

 

Exercícios

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Um dia eu chego lá. Melhor não.

Tentamos praticar exercícios várias vezes nas diferentes cidades. A corrida matinal na praia não durou mais de 4 dias consecutivos. Frequentemente dizíamos ˝não vamos correr hoje, tem trabalho para entregar˝. É MUITO difícil conseguir tempo para cuidar do corpo e isso é muito perigoso para nós que temos que ficar o dia inteiro no computador. Agora no fim do ano, com a pausa dos trabalhos descobrimos a maravilhosa academia de prédio. Sempre achei estranho o ambiente da academia, mas nunca me senti tão bem depois de suar na esteira. Em Bangkok reservamos um apartamento com academia no condomínio, para tentarmos manter o ritmo.

 

A noia da internet

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Não tem como escapar. A famigerada noia da internet. Tem internet? Não tem? Tá lenta! Os arquivos estão demorando para subir! Não tá funcionando, e agora? ˝A internet caiu˝ provavelmente será a pior frase que você poderá ouvir. O técnico da internet será o seu novo ídolo. Isso quando você conseguir o técnico da internet.

 

E a noia do e-mail

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“Ai meu deus… já faz 10 minutos que o cliente mandou e-mail e eu ainda não respondi!˝

Resolvida a noia da internet, vem na sequência a noia do e-mail de brinde. Quase enlouqueci esse ano querendo checar os e-mails a todo momento e responder os clientes imediatamente. Claro, porque você está longe do seu cliente, então vai querer compensar isso se fazendo presente, para não dar margem à desconfiança. Isso me faz levar o celular para a praia. Me faz checar o celular a cada 10 minutos. Me fez acordar o R. à 1h da manhã para fazer uma pergunta idiota sobre o trabalho – porque eu queria responder o cliente na hora. Hoje estou um pouco melhor, mas ainda estou aprendendo a ter uma relação mais saudável com minha caixa de emails.

 

Rotina, sdds

Depois de passar uns 2 meses em Itapema, na praia, cidade pequena, trabalhando sem parar, eu e R. viemos para São Paulo em dezembro resolver algumas questões. O choque foi inevitável. Tive algumas crises de ansiedade – coisa que nunca me aconteceu antes. Só aí eu parei e comecei a refletir sobre a vida que tenho levado nos últimos meses. Não tenho casa, meu trabalho é sempre um projeto totalmente diferente do outro, não tenho horários, nunca sei que dia da semana é, só fazia exercício quando dava tempo, os amigos mudavam de acordo com a cidade – e em Itapema não tínhamos amigo. Acordava sem despertador, dormia quando dava sono, comia quando tinha fome. Gente, isso faz um mal horrível. Eu percebi que eu não tinha absolutamente nada a que me agarrar. Tirando o R., o resto estava sempre flutuando ao meu redor, mudando o tempo todo, tanto coisas físicas – como a casa, os objetos, a vista da janela – como coisas abstratas, os horários, as vontades de fazer as coisas. Decidi então colocar um pouco mais de regra na minha vida – o que tenho feito aos poucos. Mesmo que eu não esteja afim eu tenho ido para a academia. Arrumar a cama todos os dias, sem falta. 12h30 é hora do almoço, não importa se estou com fome ou não. Aos poucos a disciplina vai me salvando. A Fernanda do Fêliz com a vida postou esses dias um vídeo muito bom sobre o assunto.

A maldição do fuso

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Em determinada época desse ano, eu e o R. tínhamos clientes de 4 países diferentes: Estados Unidos, Suíça, Rússia e Cingapura. Quase o fuso inteiro. Abaixo uma pequena análise das posições no fuso:

Na frente do cliente: Essa é a mais vantajosa posição. Quando nosso cliente dos Estados Unidos estava acordando, nós já havíamos tomado o café da manhã e já estávamos a todo vapor.

Razoavelmente atrás do cliente: Acho que na época estávamos umas 3h atrás do cliente suíço e umas 5h atrás da Rússia. Trabalhar com nossa cliente russa era péssimo. Se prometíamos entregar algo para ela às 10h da nossa manhã, já eram 16h lá, quase fim do dia. Felizmente ela era uma workaholic que respondia nossos e-mails quando era 1h da manhã em São Petersburgo.

Bem atrás do cliente: Terrível. Foi o caso do nosso cliente de Cingapura, com o horário totalmente invertido. Só deu certo porque ele não tinha pressa, a comunicação era bem lenta. Imagina, um tinha que espera o outro acordar cada vez que enviava um e-mail

Para quem trabalha com esses sites de freela como Upwork, não tem jeito, se vocês estão num fuso totalmente oposto, você acaba perdendo trabalho porque geralmente os clientes querem uma resposta rápida, tem mais chance quem chega primeiro.

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Mas vocês sabem… eu não trocaria tudo isso por nada. 😉

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